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As tragédias de Brumadinho e Mariana

Antes do desastre Fonte:Statickflickr No dia 25 de janeiro, a barragem do córrego do Feijão, da mineradora Vale, situada na cidade de Brumadinho e a cerca de 60 quilômetros de Belo Horizonte, se rompeu, causando um dos maiores desastres ambientais da história do país. O mar de lama formado por cerca de 12 milhões de metros cúbicos de dejetos destruiu as instalações da empresa, incluindo o refeitório onde dezenas de funcionários almoçavam, uma pousada, casas, estradas e tudo o que encontrou em seu caminho. Para tentar resgatar as vítimas do desastre, mais de 500 bombeiros se mobilizaram com o auxílio de quinze helicópteros e vários cães farejadores. Entretanto, a enorme quantidade de lama somada a forte chuva que atingiu a região logo após a tragédia tornou o acesso ao local extremamente complicado e perigoso, exigindo o uso de um maquinário pesado nas buscas por sobreviventes. Ao todo, mais de 180 corpos foram resgatados pelos bombeiros nas semanas seguintes, enquanto mais de 120 pessoas permanecem desaparecidas. Devido ao tempo que já se passou, as chances de encontrar algum desaparecido com vida são praticamente nulas, o que torna o número de vítimas do acidente superior a 300. Além das perdas humanas e ambientais, o que causou grande revolta entre os brasileiros foi o fato de três anos antes uma tragédia bastante similar já ter acontecido, e ainda assim as autoridades de vigilância e a Vale permitiram que uma nova barragem se rompesse.

Relembre o que ocorreu em Mariana

O dia 5 de novembro de 2015 marca a data em a barragem da mineradora Samarco, a qual a Vale detém 50% das ações, se rompeu em Mariana, destruindo completamente o pequeno povoado de Bento Rodrigues, que se encontrava em seus arredores. Apesar de ter tido menos mortos, 19 no total, mais de 50 milhões de metros cúbicos de dejetos de minério se espalharam com o acidente, causando um prejuízo ambiental imenso a toda a região. Porém, apesar de já terem se passado mais de três anos, infelizmente o local atingido continua debaixo de lama, com pouquíssimo tendo sido feito para a recuperação da área. Na época, ficou decidido que até o ano de 2019 o povoado de Bento Rodrigues seria reconstruído e substituído por um novo distrito, contudo, o projeto foi adiado e não existem estimativas confiáveis de quando sairá do papel.

As consequências ambientais das duas tragédias

No caso de Mariana, a imensa quantidade de resíduos que tomaram a região resultaram na pavimentação dos arredores da antiga barragem. Isso ocorreu pois a partir do momento em que a lama começa a secar, a mesma ganha uma consistência similar ao cimento, tornando o local completamente infértil e incapaz de crescer qualquer tipo de verde, por exemplo. Esses resíduos, em sua maioria formados por óxido de ferro, desestruturaram a química e o pH do solo, influenciando até mesmo na vegetação das áreas vizinhas, o que alterou o clico de vida de vários ecossistemas e de inúmeras espécies de animais e insetos que vivem nessa região. Após rompimento Fonte:Statickflickr O alcance da lama também acabou comprometendo as águas do Rio Doce, que tem contato direto com o Oceano Atlântico através do litoral do Espírito Santo. Esses resíduos causaram um desequilíbrio na quantidade de oxigênio da água do rio, o que resultou na  morte de milhares de peixes e outras espécies marinhas. De acordo com os biólogos, o rio Doce necessitará de ao menos dez anos para se recuperar de todo esse estrago. Já em relação a Brumadinho, dados divulgados pela WWF Brasil indicaram que cerca de 125 hectares de florestas foram perdidos, o que equivale a 125 campos de futebol. Além disso, poucas horas após o rompimento da barragem, as águas do rio Paraopeba  foram atingidas por dejetos, prejudicando espécies marinhas e também a comunidade indígena Naô Xohã, que depende das águas do rio para sua sobrevivência. Mesmo com os dados preocupantes da tragédia de Brumadinho, a Vale minimizou os estragos ambientais da catástrofe, destacando que as perdas humanitárias foram muito maiores que as ambientais, ao contrário do que ocorreu em Mariana. Entretanto, representantes da WWF Brasil disseram ser impossível mensurar os danos dessa tragédia no momento, tendo em vista que apenas o tempo e estudos mais aprofundados irão demonstrar em detalhes até onde se estende o impacto desse acidente.

Riscos de novos rompimentos

Após ser noticiado e virar manchete nos principais jornais mundo afora, o desastre de Brumadinho ganhou uma reportagem minuciosa no The New York Times, a qual denunciou o risco de ocorrerem novos rompimentos no futuro, tendo em vista que existem atualmente outras 88 barragens bastante similares a essa do córrego do Feijão. Segundo o jornal, essas barragens são reservatórios gigantes de resíduos de mineração que estão retidos apenas por muros feitos de limo e areia, o que já demonstrou não ser seguro o suficiente. Desse total de barragens, quase 30 se encontram bem próximas de cidades com mais de 100 mil habitantes, o que torna o risco em potencial ainda mais alarmante. A reportagem do jornal norte-americano também questionou a afirmação feita pela Vale de que a barragem teria um sistema de segurança comparável com as práticas mais modernas mundo, além de ser inspecionada com regularidade. Informações obtidas pelo The New York Times demonstram falhas claras na segurança da barragem do córrego do Feijão, e indicaram uma negligência de vários anos. Vários avisos sobre os problemas estruturais do local foram ignorados, e o equipamento de monitoramento da barragem também não se mostrou eficaz. Apesar da tecnologia atualmente estar avançada, não apenas para questões ligadas ao entretenimento e jogos online, como também para evitar e minimizar estragos como esse em Brumadinho, o sistema utilizado pela Vale ficou aquém do esperado.

Consequências para a Vale

Além dos custos com multas e indenizações, a Vale, segunda maior empresa do Brasil em valor de mercado, teve uma perda substancial de R$ 72 bilhões em seu valor logo após o rompimento da barragem de Brumadinho, no que se caracterizou como a maior perda já registrada por uma empresa nacional na Bolsa de Valores, superando os índices negativos da Petrobrás em maio de 2018. Imediatamente, a empresa adotou uma série de medidas com o intuito de minimizar esse movimento desfavorável. Em primeiro lugar, a Vale anunciou que estava colaborando com as autoridades nas investigações envolvendo o acidente, e logo em seguida também declarou que pretende acabar com as barragens de tipo montante, que era a estrutura da barragem do córrego do Feijão, considerada uma das menos seguras. Caso a mineradora realmente aplique essa medida, os custos estimados são de cerca de R$ 5 bilhões, além de haver uma diminuição no volume da produção anual de minério de ferro da empresa. Após a promessa feita pela Vale, o valor desse minério no mercado internacional apresentou uma alta de 10%, demonstrando uma clara preocupação com a quantidade de commodity que estará disponível à venda a partir dos próximos meses.


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